{"id":72,"date":"2023-08-17T19:45:00","date_gmt":"2023-08-17T22:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/?p=72"},"modified":"2025-03-20T20:37:57","modified_gmt":"2025-03-20T23:37:57","slug":"tecnopoliticas-as-necessarias-lutas-terranas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/?p=72","title":{"rendered":"[publica\u00e7\u00e3o] Tecnopol\u00edticas: as necess\u00e1rias lutas terranas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado em <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/tecnopoliticas-as-necessarias-lutas-terranas\/\">OutrasPalavras<\/a>, Tecnologia em Disputa<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">por Henrique Parra<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"730\" height=\"410\" src=\"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/69a3b354306a.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-73\" srcset=\"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/69a3b354306a.png 730w, https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/69a3b354306a-300x168.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 730px) 100vw, 730px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem: <em>Marcelo D\u00b4Salete<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Do Mainframe \u00e0 Matrix: da experimenta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e social \u00e0 domin\u00e2ncia tecnopol\u00edtica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num mundo cada vez mais tecnificado, confrontamo-nos com a exig\u00eancia permanente de adotar as tecnologias que chegam sem pedir licen\u00e7a. No \u00e2mbito das leis ou regulamentos a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que estamos a todo tempo correndo atr\u00e1s do preju\u00edzo, buscando minimizar os danos causados pelas novas tecnologias ou tentando domesticar seus poss\u00edveis usos e impactos sociais. Na pesquisa, nos esfor\u00e7amos para acompanhar, analisar e refletir criticamente sobre as configura\u00e7\u00f5es sociopol\u00edticas das tecnologias, mas tamb\u00e9m sobre a transforma\u00e7\u00e3o da vida <em>tecnomediada<\/em>: trabalho, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, justi\u00e7a, cidades, etc. Todavia, pouco temos conseguido fazer com rela\u00e7\u00e3o ao projeto\/design do que est\u00e1 sendo criado. Entre engenheiros e desenvolvedores, o esp\u00edrito geral \u00e9 de que se algo pode ser criado ele ser\u00e1 criado. Entre n\u00f3s, usu\u00e1rios ou pesquisadores, vivemos entre a tens\u00e3o do imperativo da adapta\u00e7\u00e3o subordinada e a busca dos desvios poss\u00edveis na apropria\u00e7\u00e3o criativa e na ressignifica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ritmo de cria\u00e7\u00e3o de novas tecnologias digitais \u00e9 hiperacelerado e conduzido sobremaneira por corpora\u00e7\u00f5es privadas sob um forte entrela\u00e7amento com o capital financeiro. Num mundo dominado pelas finan\u00e7as, contar com o aporte inicial de grandes investidores \u00e9 fundamental para colocar os novos produtos tecnol\u00f3gicos em posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas no mercado. H\u00e1 disputas entre os centros geopol\u00edticos que concentram maior capacidade de cria\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de tecnologias digitais, que prolongam o poder de Estados e corpora\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s do controle sobre as tecnologias e suas infraestruturas. Sabemos que a ado\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica \u00e9 promotora de certas formas de vida (p.ex. do autom\u00f3vel ao celular). N\u00e3o se trata de uma determina\u00e7\u00e3o absoluta, mas de disposi\u00e7\u00f5es socioculturais que s\u00e3o refor\u00e7adas atrav\u00e9s dos arranjos tecnol\u00f3gicos que nunca s\u00e3o neutros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O arranjo tecnocient\u00edfico gestado no p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial foi adquirindo maior centralidade na din\u00e2mica econ\u00f4mica ao longo do s\u00e9culo XX, promovendo as reestrutura\u00e7\u00f5es produtivas, as transforma\u00e7\u00f5es das cadeias de produ\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o de valor, expandindo a nova economia informacional, da cultura e do conhecimento. O capitalismo tecnocient\u00edfico, nutrido pelo agenciamento da corrida militarista e geopol\u00edtica, se encontra no centro da disputa da hegemonia pol\u00edtica internacional. S\u00e3o diversos os exemplos dessa corrida: 5G; transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica; ind\u00fastria de microchips, ind\u00fastria farmac\u00eautica, propriedade intelectual, disputa por recursos minerais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na hist\u00f3ria das pol\u00edticas tecnol\u00f3gicas de diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, essas quest\u00f5es j\u00e1 foram abordadas nas tradi\u00e7\u00f5es que interrogam os modelos de moderniza\u00e7\u00e3o, as teorias da depend\u00eancia e subdesenvolvimento, os modelos de inova\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o tecnol\u00f3gica, e sobretudo nas pr\u00e1ticas dos movimentos de Apropria\u00e7\u00e3o Tecnol\u00f3gica. Importante destacar que a ado\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 feita de forma direta e nem sempre subalternizada, havendo diferentes express\u00f5es de resist\u00eancia tecnol\u00f3gica, apropria\u00e7\u00f5es e subvers\u00f5es tecnol\u00f3gicas que podem modificar o desenho, funcionamento e aplica\u00e7\u00e3o de um tecnologia espec\u00edfica. Isso n\u00e3o \u00e9 um problema novo. Por isso, num cen\u00e1rio pol\u00edtico em que nos deparamos novamente com o ascenso de um governo mais favor\u00e1vel a inova\u00e7\u00f5es sociais, a cria\u00e7\u00e3o tecnocient\u00edfica poderia contribuir para a promo\u00e7\u00e3o de outros mundos n\u00e3o catastr\u00f3ficos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos \u00faltimos 20 anos, trabalhamos em diversas investiga\u00e7\u00f5es no campo das humanidades sobre problemas relacionadas \u00e0 crescente media\u00e7\u00e3o das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o digital. De l\u00e1 pra c\u00e1, muita coisa mudou: nas formas de vida, na presen\u00e7a ub\u00edqua das tecnologias digitais, nos modos de uso e apropria\u00e7\u00e3o da internet, nas formas de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, na distribui\u00e7\u00e3o de poder e nas disputas entre atores estatais, corporativos e da sociedade civil, nas formas de regula\u00e7\u00e3o, na produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e controle da informa\u00e7\u00e3o e sua economia em redes digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, a produ\u00e7\u00e3o e captura de dados digitais sobre aspectos inimagin\u00e1veis de nossas vidas cotidianas fluem ininterruptamente para centros de dados com capacidade de an\u00e1lise, classifica\u00e7\u00e3o e reaplica\u00e7\u00e3o numa escala planet\u00e1ria, fortalecendo assimetrias abissais de poder. Importante destacar que tanto a produ\u00e7\u00e3o e coleta, como o tr\u00e1fego e a posterior hospedagem, an\u00e1lise e classifica\u00e7\u00e3o ocorre quase que totalmente sobre infraestruturas de empresas privadas transnacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se h\u00e1 20 anos fazia sentido falar em cibercultura, ciberpol\u00edtica \u2013 pois o prefixo \u201cciber\u201d adicionava algo espec\u00edfico que se constitu\u00eda como uma arena de problematiza\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias \u2013, hoje essas fronteiras s\u00e3o fluidas ou inexistentes, pois s\u00e3o raras as atividades que n\u00e3o sejam atravessadas por um processo de informatiza\u00e7\u00e3o digital-cibern\u00e9tica. Estamos, portanto, num cen\u00e1rio completamente diferente daquele de meados dos anos 90 e in\u00edcio dos anos 2000.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 boa parte da primeira d\u00e9cada dos anos 2000, realiz\u00e1vamos pesquisas no campo das humanidades que eram capazes de acompanhar os desenvolvimentos mais recentes das tecnologias digitais. No Brasil, observamos a constitui\u00e7\u00e3o de um rico campo de investiga\u00e7\u00f5es tecnopol\u00edticas, procurando abarcar tanto as dimens\u00f5es sociopol\u00edticas, econ\u00f4micas e culturais que atravessavam a cria\u00e7\u00e3o e g\u00eanese tecnol\u00f3gica, como tamb\u00e9m os aspectos relacionados \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es da vida social, pol\u00edtica, econ\u00f4mica e cultural decorrentes dos novos modos de composi\u00e7\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o com as tecnologias. Nesse per\u00edodo, acompanhamos a elabora\u00e7\u00e3o legislativa sobre os principais marcos regulat\u00f3rios da internet e das tecnologias digitais no Brasil, bem como as transforma\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias sobre direitos civis e econ\u00f4micos, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesses 20 anos, vimos florescer no Brasil um ambiente acad\u00eamico extremamente diverso e com longa capilaridade institucional em diferentes \u00e1reas disciplinares. Na \u00e1rea da comunica\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o, antropologia, ci\u00eancia pol\u00edtica, sociologia, psicologia, artes, hist\u00f3ria, letras, filosofia, direito, ci\u00eancias da informa\u00e7\u00e3o e outras (s\u00f3 pra ficarmos no campo das humanidades), todos os principais congressos cient\u00edficos disciplinares viram nascer grupos de trabalho espec\u00edficos e redes de pesquisa dedicados a refletir sobre as transforma\u00e7\u00f5es de uma sociedade cada vez mais atravessada pelas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o digital. Para al\u00e9m das grandes \u00e1reas de conhecimento, surgiram novas redes de pesquisa interdisciplinar, com seus pr\u00f3prios congressos cient\u00edficos, que gradualmente se transformaram em novas associa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, sem falar no surgimento de novos programas de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e linhas de pesquisa onde as tecnologias digitais aparecem como elemento articulador de percursos investigativos. Relato sinteticamente essa trajet\u00f3ria, sem ainda ter realizado um levantamento detalhado (essa \u00e9 uma tarefa em curso), mas arrisco dizer que temos no Brasil um prof\u00edcuo ecossistema acad\u00eamico-cient\u00edfico em humanidades dedicado a investigar, em suas diversas dimens\u00f5es, a vida mediada pelas tecnologias digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI foi um per\u00edodo de muitas experimenta\u00e7\u00f5es, tanto no ambiente da pesquisa acad\u00eamica como nas pr\u00e1ticas de grupos ativistas e movimentos sociais. Em especial, nutr\u00edamos a ideia de que a digitaliza\u00e7\u00e3o e a internet poderiam contribuir para transforma\u00e7\u00f5es institucionais no sentido de um aprofundamento democr\u00e1tico: experimentos de democracia direta e participa\u00e7\u00e3o distribu\u00edda, ciberdemocracias, formas mais avan\u00e7adas de controle cidad\u00e3o sobre o Estado e as corpora\u00e7\u00f5es; economias colaborativas e formas mais distributivas da produ\u00e7\u00e3o e consumo; pol\u00edticas de acesso a dados e informa\u00e7\u00f5es; regimes n\u00e3o propriet\u00e1rios de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, novas formas de colabora\u00e7\u00e3o entre cientistas profissionais e amadores, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resumo, havia um universo de pesquisas e de pr\u00e1ticas sociais em que a inova\u00e7\u00e3o social e institucional se orientava por um horizonte mais solid\u00e1rio, emancipat\u00f3rio e internacionalista. Nesse momento o desenvolvimento e apropria\u00e7\u00e3o das tecnologias digitais estavam incorporadas (<em>embeded<\/em>) em pr\u00e1ticas socioculturais e institucionais que n\u00e3o estavam dominadas, exclusivamente, por normatividades e racionalidades de maximiza\u00e7\u00e3o capitalista. As tecnologias digitais e a internet, em especial, eram portadoras de modos de composi\u00e7\u00e3o sociot\u00e9cnicos mais abertos \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Evidentemente, esse per\u00edodo foi marcado por disputas importantes contra os poderes constitu\u00eddos: as for\u00e7as olig\u00e1rquicas que organizam o funcionamento do Estado, os aparatos de seguran\u00e7a nacional e as corpora\u00e7\u00f5es industriais que eram amea\u00e7adas por din\u00e2micas socioecon\u00f4micas emergentes e por pr\u00e1ticas pol\u00edticas potencialmente disruptivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse mesmo per\u00edodo acompanhamos um acelerado processo de crescente concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e corporativa das empresas que atuam na internet ou que criaram produtos e servi\u00e7os relacionados \u00e0 economia informacional. Hoje, um pequeno n\u00facleo de poucas empresas domina quase a totalidade da economia digital. A concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 tamanha que faz os oligop\u00f3lios industriais e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa do s\u00e9culo XX parecerem um mercado diverso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Verificamos tamb\u00e9m a crescente interconex\u00e3o entre os processos de digitaliza\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o da economia. Como uma cobra de duas cabe\u00e7as que se retroalimentam, o capitalismo financeiro e a grandes corpora\u00e7\u00f5es de tecnologia produziram um ambiente de refor\u00e7o m\u00fatuo, capaz de acelerar e controlar a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, ocupando posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas no mercado, ditando o ritmo da inova\u00e7\u00e3o e buscando controlar as trajet\u00f3rias e linhagens de desenvolvimento tecnol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, vivemos a reboque da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica conduzida pelas grandes corpora\u00e7\u00f5es nesse arranjo finan\u00e7as-<em>Big Techs<\/em>-militariza\u00e7\u00e3o-geopol\u00edtica, reatualizando as formas econ\u00f4micas extrativistas e neocoloniais descritas atualmente sob distintas nomenclaturas: monocultura tecnocient\u00edfica, colonialismo de dados, capitalismo de vigil\u00e2ncia, etc.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A chegada e ado\u00e7\u00e3o dos novos dispositivos (artefatos ou <em>softwares<\/em>) s\u00e3o tomadas como fatos consumados. Trata-se apenas de encontrar as \u201cboas formas\u201d de uso que nos restam. Basta observar como \u00e9 dif\u00edcil imaginar outros futuros tecnol\u00f3gicos para a crescente automa\u00e7\u00e3o. A chamada Quarta Revolu\u00e7\u00e3o Industrial \u00e9 comumente apresentada como sin\u00f4nimo do \u201cdescarte\u201d de milh\u00f5es de pessoas. Menos trabalho para quem? Menos riqueza para quem? J\u00e1 n\u00e3o ouvimos essa hist\u00f3ria antes? Por que esse processo ainda aparece como inexor\u00e1vel? N\u00e3o seremos capazes de imaginar e praticar outros desenhos tecnol\u00f3gicos para a automa\u00e7\u00e3o cujo resultado seria distinto na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caso semelhante acontece com o atual debate sobre a regula\u00e7\u00e3o das plataformas de redes sociais corporativas. Incapazes de enfrentar o problema em sua complexidade, dada a assimetria de poder, limitamo-nos a tentar regular os seus efeitos sempre tardiamente, pois a velocidade da transforma\u00e7\u00e3o das tecnologias que se tornaram ub\u00edquas em nossas vidas \u00e9 infinitamente superior ao ritmo de nossas institui\u00e7\u00f5es. Nessa corrida, se n\u00e3o formos capazes de assumir radicalmente o controle democr\u00e1tico sobre a g\u00eanese das tecnologias que utilizamos, sobre quais tecnologias queremos e como podemos controlar suas condi\u00e7\u00f5es de aplica\u00e7\u00e3o, ficaremos sempre em defasagem e desvantagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este \u00e9 o campo da tecnopol\u00edtica! Por isso falamos provocativamente em Tecnoceno pra designar o per\u00edodo geohist\u00f3rico em que vivemos: quando atribu\u00edmos \u00e0s tecnologias o dom\u00ednio ou primazia da ag\u00eancia sobre nossas vidas, despolitizando sua g\u00eanese e naturalizando sua exist\u00eancia. \u00c9 nesse sentido que alguns autores tratam a crescente tecniciza\u00e7\u00e3o como uma nova ambi\u00eancia. Nesse caso, n\u00e3o se trata da supera\u00e7\u00e3o cr\u00edtica latouriana da clivagem moderna entre cultura e natureza, mas sim de um projeto pol\u00edtico difuso de essencializa\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica como segunda natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O aparente sucesso do ChatGPT \u00e9 performativo em v\u00e1rios aspectos. Acompanhamos uma corrida corporativa e geopol\u00edtica pela lideran\u00e7a nos modelos de intelig\u00eancia artifical. No campo da inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica a velocidade \u00e9 um vetor fundamental da disputa, seja porque ela est\u00e1 embarcada nos ciclos de financeiriza\u00e7\u00e3o, seja porque chegar na frente na defini\u00e7\u00e3o de uma t\u00e9cnica aumenta as chances de que aquela t\u00e9cnica torne-se o padr\u00e3o adotado pelas tecnologias que a seguir\u00e3o. Os efeitos econ\u00f4micos e pol\u00edticos da padroniza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica s\u00e3o bem conhecidos e hoje com a possibilidade da escalabilidade digital no n\u00edvel planet\u00e1rio o dom\u00ednio sobre um padr\u00e3o tecnol\u00f3gico confere muito poder pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo da pesquisa cient\u00edfica essa corrida pode ter efeitos sinistros sobre os quais pouco se fala. Na medida em que a pesquisa tecnocient\u00edfica \u00e9 cada vez mais dependente dos investimentos privados na busca pela inova\u00e7\u00e3o lucrativa, ou de recursos p\u00fablicos cuja l\u00f3gica de investimento est\u00e1 orientada pela disputa intercapitalista, o sucesso de um tecnologia pode redirecionar as linhas de pesquisa, silenciando ou matando outras trajet\u00f3rias de investiga\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que se tornam menos relevantes. Na base do ChatGPT existem anos de pesquisa em NLP (<em>natural language processing<\/em>) sobre diversos modelos em lingu\u00edstica computacional. Como ser\u00e1 que o \u201csucesso\u201d de um modelo espec\u00edfico de intelig\u00eancia artifical (baseado nas LLMs) vai impactar na pesquisa cient\u00edfica e nas poss\u00edveis trilhas de desenvolvimento tecnol\u00f3gico de modelos de IA?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro exemplo chocante ocorre nas intera\u00e7\u00f5es entre educa\u00e7\u00e3o e tecnologias digitais. A pandemia da covid-19 acelerou um processo que j\u00e1 estava em curso, no qual as grandes corpora\u00e7\u00f5es de TI souberam tirar vantagem de um ambiente de fragilidade institucional e de subfinanciamento da ci\u00eancia e educa\u00e7\u00e3o no Brasil. Diante da urg\u00eancia em ampliar rapidamente a ado\u00e7\u00e3o de tecnologias digitais na educa\u00e7\u00e3o, a maior parte das secretarias estaduais de educa\u00e7\u00e3o e muitas universidades p\u00fablicas adotaram infraestruturas e servi\u00e7os controlados pelas <em>Big Techs<\/em> (principalmente Google, Microsoft e Amazon). N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que na era do capitalismo informacional nossa depend\u00eancia tecnol\u00f3gica atualiza uma recoloniza\u00e7\u00e3o sob diversas perspectivas: cognitivo-epistemol\u00f3gica, cultural, energ\u00e9tica, econ\u00f4mica e pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O digital como ambi\u00eancia: conflitos tecnopol\u00edticos como lutas cosmot\u00e9cnicas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num cen\u00e1rio de imensa assimetria tecnol\u00f3gica e econ\u00f4mica como podemos engendrar pesquisas com capacidade de ferir o poder? Como podemos criar alternativas tecnol\u00f3gicas capazes de oferecer rotas de bifurca\u00e7\u00e3o diante do modelo tecnocient\u00edfico dominante? Como podemos disputar a produ\u00e7\u00e3o de conhecimentos amparados em <em>Big Data<\/em> e na intelig\u00eancia artificial, quando a concentra\u00e7\u00e3o de enormes bases de dados s\u00e3o um requisito para o treinamento e aplica\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial, cuja capacidade computacional \u00e9 hoje um privil\u00e9gio de poucos atores, algumas grandes corpora\u00e7\u00f5es e alguns Estados?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria da computa\u00e7\u00e3o teve momentos em que a capacidade de utiliza\u00e7\u00e3o criativa de computadores transbordou para fora dos centros verticais de controle. A chamada revolu\u00e7\u00e3o microeletr\u00f4nica e a produ\u00e7\u00e3o de computadores de custo acess\u00edvel a alguns indiv\u00edduos privilegiados, criou uma capacidade distribu\u00edda do poder computacional, ampliando radicalmente os processos de inova\u00e7\u00e3o na ponta (usu\u00e1rio do computador), retirando a exclusividade dos grandes laborat\u00f3rios militares, corporativos ou universit\u00e1rios. De forma parecida, os anos iniciais da internet comercial (anos 90 at\u00e9 primeira d\u00e9cada dos anos 2000) ofereceram din\u00e2micas de intera\u00e7\u00e3o e de colabora\u00e7\u00e3o fora dos circuitos dominados pelas for\u00e7as de mercantiliza\u00e7\u00e3o e militariza\u00e7\u00e3o. Poucos se lembram, mas o espa\u00e7o virtual de navega\u00e7\u00e3o era designado DMZ (zona desmilitarizada, em ingl\u00eas), identificando claramente a origem (militar) e sua abertura para o uso civil-comercial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora que a informatiza\u00e7\u00e3o digital-cibern\u00e9tica tornou-se uma ambi\u00eancia \u2013 presen\u00e7a ub\u00edqua e imanente \u2013 para quase a totalidade da vida, precisamos ativar outras imagina\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e nos aliar a pr\u00e1ticas tecnol\u00f3gicas que combinem um tanto de fuga (recusa, \u00eaxodo e subtra\u00e7\u00e3o) com um tanto de bifurca\u00e7\u00e3o. Muitas delas j\u00e1 s\u00e3o praticadas por aquelas e aqueles que resistem historicamente \u00e0s for\u00e7as coloniais-capitalistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estamos no momento de uma urgente inflex\u00e3o da pesquisa e do ativismo no campo dos direitos digitais em dire\u00e7\u00e3o aos conflitos terranos, lutas que confrontam a cosmovis\u00e3o do progressismo, da mercantiliza\u00e7\u00e3o e do privil\u00e9gio antropoc\u00eantrico colonial-capitalista que converte a vida humana e n\u00e3o-humana em recursos a serem explorados. S\u00e3o muitas as iniciativas que retomam das tecnologias computacionais as potencialidades (cognitivas, culturais e pol\u00edticas) que elas inauguram, buscando re-territorializar e corporificar os seus sentidos, resistindo portanto \u00e0s for\u00e7as de abstra\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o que codificam e transformam o mundo em mat\u00e9ria mercantiliz\u00e1vel. S\u00e3o express\u00f5es de lutas cosmot\u00e9cnicas, conflu\u00eancias que bifurcam os vetores que sustentam o Antropo-Capitaloceno, nas quais encontramos pr\u00e1ticas de uma tecnopol\u00edtica do Comum, decolonial, antirracista, antissexista ou anticapitalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O poder de escalabilidade realizado atrav\u00e9s de <em>Big Data<\/em> e da intelig\u00eancia artificial depende de uma capacidade de abstra\u00e7\u00e3o homogeneizante para a constru\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es estat\u00edsticos. \u00c9 uma forma de simplifica\u00e7\u00e3o (redu\u00e7\u00e3o de mundos) an\u00e1loga ao que encontramos na <em>plantation<\/em> colonial. \u00c9 um tipo de opera\u00e7\u00e3o que pode ser eficiente para a realiza\u00e7\u00e3o de algumas tarefas, por\u00e9m de aplica\u00e7\u00e3o limitada. Devemos estar atentos ao seu modelo de efici\u00eancia, pois geralmente, ela perpetua e aprofunda a assimetria dos poderes constitu\u00eddos. O universo de dados que est\u00e1 na base do treinamento dos modelos, bem como nas escolhas da constru\u00e7\u00e3o do modelo estat\u00edstico, sempre ser\u00e3o o reflexo de uma certa configura\u00e7\u00e3o de mundo. O problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de vi\u00e9s ou de acur\u00e1cia, mas sim o fortalecimento de um regime de verdade algor\u00edtmica que objetiva legitimar a reprodu\u00e7\u00e3o das desigualdades existentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na perspectiva de uma tecnopol\u00edtica terrana, ativar experimenta\u00e7\u00f5es sobre intelig\u00eancia artificial na educa\u00e7\u00e3o, por exemplo, implicaria numa alian\u00e7a com educadores e estudantes para criar uma intelig\u00eancia artificial que amplie e fortale\u00e7a sua capacidade de a\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma coletiva; pensar na sa\u00fade digitalizada significa criar as condi\u00e7\u00f5es para que trabalhadores do SUS e cidad\u00e3os possam re-envolver as tecnologias em suas pr\u00e1ticas de promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade como um Comum; ressituar as tecnologias digitais junto \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas significa, antes de tudo, pensar que as tecnologias devem promover a defesa da vida, a garantia da terra e das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que suas formas de vida possam existir; pensar em tecnologias que promovam a seguran\u00e7a coletiva significa enfrentar a cultura securit\u00e1ria, militarista e carcer\u00e1ria que alimenta o genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra. Sem a participa\u00e7\u00e3o dos que s\u00e3o diretamente afetados pela permanente atualiza\u00e7\u00e3o dos dispositivos de explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, as reivindica\u00e7\u00f5es sobre os direitos digitais correm o risco de ficar restritas aos problemas enunciados e diagnosticados por aqueles que desenham e implementam as tecnologias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alternativamente ao modelo da escalabilidade homogeneizante, como poder\u00edamos realizar outros modelos de efici\u00eancia societal baseadas na prolifera\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a no interior do sistema? E se ao inv\u00e9s da simplifica\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica da <em>plantation<\/em> computacional, f\u00f4ssemos capazes de criar outras de formas de colabora\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o de conhecimento tecnocient\u00edfico, que promovam as alian\u00e7as que amplificam e sustentam mundos mais diversos? Um requisito fundamental para isso ocorrer \u00e9 a capacidade de autodetermina\u00e7\u00e3o (situada, coletiva e democr\u00e1tica) sobre as infraestruturas de nossas vidas tecnomediadas. Noutras palavras, uma soberania tecnol\u00f3gica relacional amparada na interdepend\u00eancia entre aqueles (humanos e n\u00e3o-humanos) que produzem uma comunidade pol\u00edtica. Ao inv\u00e9s da soberania imunit\u00e1ria (das r\u00edgidas fronteiras entre o dentro e o fora, do amigo-inimigo) e da autossufici\u00eancia (do indiv\u00edduo, na na\u00e7\u00e3o, da empresa), investir na produ\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo. A pr\u00e1tica da diversidade cosmot\u00e9cnica \u00e9 tamb\u00e9m uma cosmopol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cria\u00e7\u00e3o de arranjos sociot\u00e9cnicos a partir dessas lutas exige que outras racionalidades, normatividades e cosmovis\u00f5es sejam inscritas no desenho e implementa\u00e7\u00e3o da tecnologia. Podemos praticar formas de fuga e subtra\u00e7\u00e3o das praticidades oferecidas pelas tecnologias corporativas e ao mesmo tempo criar arranjos sociot\u00e9cnicos que permitam a bifurca\u00e7\u00e3o das trajet\u00f3rias tecnol\u00f3gicas a favor de outros mundos. As solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas que as grandes empresas oferecem s\u00e3o \u201cboas\u201d para o mundo que elas sustentam. Se jogamos apenas no campo delas j\u00e1 estamos perdidos. O argumento \u00e9 simples e o problema \u00e9 mais complexo: n\u00e3o h\u00e1 <em>data center<\/em> sem terra, sem \u00e1gua, sem energia, sem pessoas. Talvez, retomar as tecnologias que perdemos signifique criar as tecnologias que nunca tivemos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os argumentos e a hip\u00f3tese central desse texto, aqui apresentados de forma sint\u00e9tica, s\u00e3o desenvolvidos em maior detalhe no trabalho: <em><a href=\"https:\/\/repositorio.unifesp.br\/bitstream\/handle\/11600\/66165\/Tecnopoliticas_Lutas_Cosmotecnicas_Henrique_Parra_2022.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">Da tecnopol\u00edtica \u00e0s lutas cosmot\u00e9cnicas: dissensos ontoepist\u00eamicos face \u00e0 hegemonia cibern\u00e9tica no Antropoceno<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em OutrasPalavras, Tecnologia em Disputa por Henrique Parra Do Mainframe \u00e0 Matrix: da experimenta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e social \u00e0 domin\u00e2ncia tecnopol\u00edtica Num mundo cada vez mais tecnificado, confrontamo-nos com a exig\u00eancia permanente de adotar as tecnologias que chegam sem pedir licen\u00e7a. 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