{"id":85,"date":"2023-12-04T20:04:00","date_gmt":"2023-12-04T23:04:00","guid":{"rendered":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/?p=85"},"modified":"2025-03-20T20:37:36","modified_gmt":"2025-03-20T23:37:36","slug":"as-bifurcacoes-na-historia-da-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/?p=85","title":{"rendered":"[publica\u00e7\u00e3o] As bifurca\u00e7\u00f5es na hist\u00f3ria da internet"},"content":{"rendered":"\n<p>Publicado em <a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2023\/12\/as-bifurcacoes-na-historia-da-internet\/\">Jacobin<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>por Leonardo Foletto<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"615\" src=\"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/igor-omilaev-rUvFnzl_fmg-unsplash-1536x922-2-1024x615.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-87\" srcset=\"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/igor-omilaev-rUvFnzl_fmg-unsplash-1536x922-2-1024x615.jpg 1024w, https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/igor-omilaev-rUvFnzl_fmg-unsplash-1536x922-2-300x180.jpg 300w, https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/igor-omilaev-rUvFnzl_fmg-unsplash-1536x922-2-768x461.jpg 768w, https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/igor-omilaev-rUvFnzl_fmg-unsplash-1536x922-2.jpg 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o por Igor Omilaev\/Unsplash<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>\u00e1 alguns anos, ativistas, pesquisadores, fil\u00f3sofos e intelectuais comentam que a internet n\u00e3o \u00e9 mais o que j\u00e1 foi. A esperan\u00e7a de construir um mundo mais justo via rede \u2014 com menos discrimina\u00e7\u00e3o e mais respeito aos outros, com todos sendo tamb\u00e9m m\u00eddia, a partir de uma saud\u00e1vel prolifera\u00e7\u00e3o de pontos de vista causada pela libera\u00e7\u00e3o do polo emissor da informa\u00e7\u00e3o \u2014 tem dado lugar a um pesadelo de desinforma\u00e7\u00e3o. Realidades paralelas s\u00e3o constru\u00eddas a partir de informa\u00e7\u00f5es mentirosas proliferadas em dispositivos acessados por, pelo menos, dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o mundial, turbinadas por uma defesa por vezes absolutista da liberdade de express\u00e3o e pela plataformiza\u00e7\u00e3o de nossas vidas online.<\/p>\n\n\n\n<p>A consequ\u00eancia tem sido conhecida: circula\u00e7\u00e3o de discursos de \u00f3dio e espalhamento de desinforma\u00e7\u00e3o \u201ccomo nunca na hist\u00f3ria\u201d; captura ativa de nossa aten\u00e7\u00e3o e do nosso olhar, transformados em dados que, coletados em quase todos os lugares da rede, est\u00e3o a servi\u00e7o de poucas empresas que lucram cada vez mais oferecendo tudo para o nosso consumo; precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho a partir de novas formas de explora\u00e7\u00e3o do trabalho digital, atomizada e globalizada tamb\u00e9m para tentar dificultar qualquer tipo de rea\u00e7\u00e3o organizada dos trabalhadores; continua\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es coloniais, agora a partir de um colonialismo digital (ou de dados), criado a partir de um processo de extra\u00e7\u00e3o de valor que reproduz e amplia o racismo, incrustando tamb\u00e9m na t\u00e9cnica os vieses de ra\u00e7a (e g\u00eanero), em um fen\u00f4meno chamado de racismo algor\u00edtmico.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa explora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem levado dados do sul global para o enriquecimento de empresas de tecnologia do norte, especialmente dos Estados Unidos e da Europa, o que tamb\u00e9m traz consequ\u00eancias para a soberania digital dos pa\u00edses que n\u00e3o constroem uma infraestrutura pr\u00f3pria para armazenar e cuidar de suas informa\u00e7\u00f5es, jogando conhecimento precioso silenciosamente em centros privados para armazenamento de dados que n\u00e3o sabemos bem como funcionam, como nas universidades que adotam nuvens (\u201cN\u00e3o existe nuvem: \u00e9 apenas os computadores de outras pessoas\u201d diz o meme) das big techs. E isso \u00e9 apenas um resumo: poder\u00edamos falar tamb\u00e9m das consequ\u00eancias ambientais de um modo de vida conectado cada vez mais dependente de energia em um planeta cada vez mais quente e colapsado, ou dos efeitos psicol\u00f3gicos que a hiper exposi\u00e7\u00e3o as telas e informa\u00e7\u00f5es rasas que abundam nas redes sociais t\u00eam sobre o c\u00e9rebro humano \u2014 mas, por hora, est\u00e1 bom para voc\u00ea entender o que estou falando.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante de tudo isso, \u00e9 inevit\u00e1vel pensar que, de fato, a internet deu ruim \u2014 ou, pelo menos, n\u00e3o cumpriu nossas expectativas de melhora global e pode estar acelerando os problemas do planeta. O que nos leva a outro pensamento: o que faremos diante desse colapso? H\u00e1 alguns anos, muita gente tem diagnosticado esse cen\u00e1rio e tentado apontar caminhos, entre os quais se encontra o autor deste livro. A quest\u00e3o, hoje mais clara do que duas d\u00e9cadas atr\u00e1s, \u00e9 muito mais pol\u00edtica e econ\u00f4mica do que tecnol\u00f3gica. E quando falamos nestas duas palavras \u2014 pol\u00edtica e economia \u2014, sabemos que toda e qualquer bifurca\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil nem suave. \u201c\u00c9 mais f\u00e1cil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo\u201d, como disse Mark Fisher, numa frase hoje bastante ouvida e que sintetiza bem a encruzilhada que nos traz o chamado realismo capitalista. Ser\u00e1 que outra internet \u2014 uma mais pr\u00f3xima \u00e0 que acredit\u00e1vamos nos 2000, descentralizada, menos vigilante, mais das pessoas do que de empresas e rob\u00f4s \u2014 ainda \u00e9 poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a essa pergunta inquietante que buscamos, nesta cole\u00e7\u00e3o, tentar responder. Sem a pretens\u00e3o de trazer respostas definitivas nem \u00fanicas, porque n\u00e3o existem. Mas com a esperan\u00e7a de politizar esse mal-estar que nos acomete para jogar luz a bifurca\u00e7\u00f5es poss\u00edveis \u2014 j\u00e1 existentes ou a serem criadas. Falar bastante do problema \u00e9 um primeiro passo para tentar resolv\u00ea-lo, nos ensina a psican\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>O livro que voc\u00ea tem em m\u00e3os, portanto, \u00e9 o primeiro desse esfor\u00e7o. Geert Lovink, seu autor, \u00e9 algu\u00e9m que faz a cr\u00edtica da internet tal como ela se tornou h\u00e1 algum tempo; j\u00e1 no final dos anos 1990, a partir do conceito de <em>m\u00eddia t\u00e1tica <\/em>(da qual \u00e9 o seu principal proponente) e de uma corrente de estudos chamada <em>net-criticism<\/em>, apontava para os perigos da internet estar diretamente relacionada com a expans\u00e3o do poder de empresas privadas em sua maioria oriundas de um \u00fanico pa\u00eds, os Estados Unidos. Em coro com <em>A Ideologia Californiana<\/em>, ensaio seminal (publicado em 1995) de Richard Barbrook e Andy Cameron sobre a tecnopol\u00edtica da rede, Geert aponta, h\u00e1 mais de 20 anos, tamb\u00e9m para a necessidade de cria\u00e7\u00e3o de infraestruturas e redes aut\u00f4nomas, organizadas coletivamente e independentes de grandes empresas, para que n\u00e3o deix\u00e1ssemos o desenvolvimento, o controle e a inova\u00e7\u00e3o das tecnologias digitais em rede apenas na m\u00e3o de um punhado de organiza\u00e7\u00f5es privadas do Vale do Sil\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Professor da Universidade de Amsterdam de Ci\u00eancias Aplicadas, Geert tem um longo hist\u00f3rico no ativismo midi\u00e1tico e ciberativista europeu. Membro fundador da Nettime \u2014 um grupo e uma lista de e-mails sobre cultura digital (ou \u201cnetworked cultures\u201d), pol\u00edtica e t\u00e1tica que, desde 1996, re\u00fane uma s\u00e9rie de pesquisadores, professores, te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos europeus \u2014, tamb\u00e9m fundou, em 2004, o Institute of Network Cultures, que trabalha com pesquisas e publica\u00e7\u00f5es ligadas a arte digital, cultura da imagem, design e publica\u00e7\u00e3o digital a partir de uma perspectiva interdisciplinar e cr\u00edtica. \u00c9 autor de livros como <em>Networks Without a Case<\/em> (2012), <em>Social Media Abyss<\/em> (2016) e <em>Organization after Social Media<\/em> (com Ned Rossiter) \u2013 todos sem edi\u00e7\u00e3o brasileira, mas traduzidos para o alem\u00e3o, espanhol e italiano. Nos \u00faltimos anos, Geert tem refor\u00e7ado sua posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica ao que a internet se transformou em livros como <em>Sad by Design<\/em> (2019) e <em>Stuck on the Platform<\/em> (2022), nos quais ele analisa o crescimento das plataformas de m\u00eddias sociais e a rela\u00e7\u00e3o do design pela qual foram feitas com a prolifera\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o, da circula\u00e7\u00e3o de memes t\u00f3xicos e discursos de \u00f3dio, da fadiga online a partir das telas (<a href=\"https:\/\/nucleo.jor.br\/reportagem\/2023-08-28-ataques-coordenados-miram-reunioes-do-judiciario-no-zoom\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">explorado durante a pandemia no chamado \u201czoom bombing\u201d<\/a>) e da adic\u00e7\u00e3o online.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste <em>A Extin\u00e7\u00e3o da Internet<\/em>, ele segue nessa an\u00e1lise, agora de modo sint\u00e9tico e dial\u00e9tico, trazendo um resumo de suas principais quest\u00f5es atuais sobre essa \u201cressaca da internet\u201d, como eu mesmo j\u00e1 a chamei em 2018. Provoca sua plateia \u2014 o texto parte de uma aula inaugural dada em 18 de novembro de 2022 na Universidade de Amsterdam \u2014 a examinar a posi\u00e7\u00e3o atual da internet para se pensar, criativamente, em alternativas de bifurca\u00e7\u00e3o. Para isso, usa memes, cita f\u00f3runs da internet, menciona ativistas conhecidos e chama um time de pensadores que est\u00e3o, quase todos, se debru\u00e7ando sobre a rela\u00e7\u00e3o do capitalismo neoliberal com a tecnologia digital: h\u00e1 Bernard Stiegler, Franco \u201cBifo\u201d Berardi, Tiziana Terranova, Donatella Della Ratta, Yuk Hui, mas tamb\u00e9m outros de gera\u00e7\u00f5es anteriores, como Mark Fisher, Jacques Derrida, Bertolt Brecht e Walter Benjamin. De Stiegler, vem uma m\u00e1xima que tamb\u00e9m percorre as inten\u00e7\u00f5es deste livro: \u201ccolocar os automatismos a servi\u00e7o de uma desautomiza\u00e7\u00e3o negantr\u00f3pica\u201d. De Benjamin, um convite a uma tarefa de hoje: \u201cescovar a hist\u00f3ria a contrapelo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Propor bifurca\u00e7\u00f5es \u00e9 uma forma de lutar contra o imobilismo do \u201cn\u00e3o h\u00e1 nada a fazer\u201d, que a leitura dos primeiros par\u00e1grafos dessa introdu\u00e7\u00e3o pode sugerir. Geert faz, diversas vezes neste livro, perguntas para nos tirar dessa posi\u00e7\u00e3o exclusivamente niilista e nos chamar \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Por exemplo: \u201cComo transformar descontentamento e contra-hegemonia em uma verdadeira transi\u00e7\u00e3o de poder nesta era da plataforma tardia? O que pode ocupar o vazio em nossos c\u00e9rebros desfragmentados depois que a internet desocupar a cena? Em que pode consistir a vida depois que nossas mentes fr\u00e1geis n\u00e3o forem mais atacadas pelos efeitos entorpecentes e deprimentes de rolagem infinita?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Embora fale em colonialismo, a perspectiva de Geert ainda \u00e9 a europeia branca. Nesse caso, sua vis\u00e3o nos ajuda a entender os problemas do ocidente em que a internet foi concebida, capturando um <em>zeitgeist<\/em> de quem \u2013 com menos problemas de conex\u00e3o, mais produ\u00e7\u00e3o de tecnologias digitais e a caminho (neste 2023) de uma regula\u00e7\u00e3o razo\u00e1vel das plataformas \u2014 ainda se pergunta o que pode ser feito para reinventar a internet. Nos pr\u00f3ximos volumes da cole\u00e7\u00e3o, trataremos perspectivas sobre as bifurca\u00e7\u00f5es poss\u00edveis a partir de pontos de vista do sul global. Acreditamos que nossa regi\u00e3o, ainda com todos os problemas de acesso, regula\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e desigualdade generalizada, tem o potencial real de alternativas novas ao incorporar e incubar solu\u00e7\u00f5es desde a funda\u00e7\u00e3o, baseadas na inventividade gambiarr\u00edstica de quem cria porque entende melhor que n\u00e3o h\u00e1 outro caminho para (sobre)viver.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em Jacobin por Leonardo Foletto \u00e1 alguns anos, ativistas, pesquisadores, fil\u00f3sofos e intelectuais comentam que a internet n\u00e3o \u00e9 mais o que j\u00e1 foi. 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