{"id":95,"date":"2025-02-16T20:17:00","date_gmt":"2025-02-16T23:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/?p=95"},"modified":"2025-03-20T20:35:43","modified_gmt":"2025-03-20T23:35:43","slug":"para-ferir-o-coraao-da-besta-civilizatoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/?p=95","title":{"rendered":"[publica\u00e7\u00e3o] Para ferir o cora\u00e7\u00e3o da besta civilizat\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado em <a href=\"https:\/\/www.igrakniga.com\/post\/para-ferir-o-cora%C3%A7%C3%A3o-da-besta-civilizat%C3%B3ria\">Igr\u00e1 Kniga blog<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">por Alana Moraes<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"857\" height=\"546\" src=\"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/3b2d04_ffbb6a9d066441988e6b6a4fea2fb602mv2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-96\" srcset=\"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/3b2d04_ffbb6a9d066441988e6b6a4fea2fb602mv2.jpg 857w, https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/3b2d04_ffbb6a9d066441988e6b6a4fea2fb602mv2-300x191.jpg 300w, https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/3b2d04_ffbb6a9d066441988e6b6a4fea2fb602mv2-768x489.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 857px) 100vw, 857px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Detalhe de <em>Aqui est\u00e1 caliente<\/em>\u00a0(2023), <strong>Santiago Yahuarcani<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-qzibg71\"><strong>1) Especialmente a partir da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, o tema do colapso socioambiental vem ganhando uma relev\u00e2ncia in\u00e9dita no debate p\u00fablico. Ao mesmo tempo, como sinalizaram Latour e Schultz, hoje, a \u201ccerteza da cat\u00e1strofe parece mais paralisar a a\u00e7\u00e3o\u201d. Para eles, tal paralisia \u00e9 uma evid\u00eancia importante de que \u201cn\u00e3o h\u00e1 alinhamento instintivo entre as representa\u00e7\u00f5es do mundo, as energias a serem desencadeadas, os valores a serem defendidos\u201d. Ao que voc\u00ea atribui essa n\u00e3o correspond\u00eancia entre as evid\u00eancias cada vez mais incontest\u00e1veis das emerg\u00eancias clim\u00e1ticas e as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas concretas capazes de alterar a velocidade da destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica? Voc\u00ea vem refletindo sobre o esgotamento das formas pol\u00edticas produzidas na sociedade industrial e seus limites diante de tal cen\u00e1rio de m\u00faltiplas crises. Poderia desenvolver mais essa quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-5hb24548\">Eu parto de uma quest\u00e3o simples: as formas pol\u00edticas de organiza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m as refer\u00eancias te\u00f3ricas e as imagina\u00e7\u00f5es sobre transforma\u00e7\u00e3o que grande parte do campo das esquerdas socialistas possui hoje s\u00e3o herdeiras do mundo industrial. Isso implica, por exemplo, que uma certa ideia difundida de justi\u00e7a social tenha se relacionado, historicamente, com a demanda pelo que seria a justa redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza ou o justo acesso aos bens e ao modo de vida propiciado pelo \u201cprogresso\u201d e pela moderniza\u00e7\u00e3o. A tradi\u00e7\u00e3o da luta oper\u00e1ria, na verdade, sempre foi cindida por duas for\u00e7as, duas formas diferentes de confronta\u00e7\u00e3o e luta. A primeira tem a ver com essa demanda por redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza, melhores sal\u00e1rios, amplia\u00e7\u00e3o das formas de acesso a bens de consumo, incremento t\u00e9cnico incessante das capacidades produtivas. Mas uma outra se relacionava historicamente com as lutas contra o trabalho subordinado e, sobretudo, contra os modos de vida impostos pelo capitalismo e o que ele destru\u00eda em termos de autonomia das formas de trabalho e de rela\u00e7\u00e3o diversa entre pessoas e com seus ecossistemas, com o tempo da vida multiesp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-ulw8b733\">A primeira tradi\u00e7\u00e3o teve maior sucesso em definir os horizontes program\u00e1ticos que, por sua vez, informaram os projetos de poder de partidos socialistas e trabalhistas desde o s\u00e9culo XIX tanto na Europa, mas tamb\u00e9m fora dela. A grande contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 que, nessa equa\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o comp\u00f5em a mesma engrenagem e os interesses de capital e do trabalho, por assim dizer, acabam se revezando na opera\u00e7\u00e3o dessa m\u00e1quina que ora produz Chernobyl, ora produz Cubat\u00e3o, Bhopal, Brumadinho e assim vai. Como sagazmente afirmava o mestre Antonio Bispo dos Santos, esquerda e direita, ao longo do s\u00e9culo XX, disputaram para pilotar a locomotiva do desastre. Evidentemente essas ideias de \u201cjusti\u00e7a\u201d se fundaram na divis\u00e3o subordinada e moderna entre o que \u00e9 imaginado como \u201cnatureza\u201d e o que seriam as \u201cquest\u00f5es sociais\u201d e essa cis\u00e3o \u00e9 fundamental para compreender tamb\u00e9m a produ\u00e7\u00e3o de duas categorias centrais para a acomoda\u00e7\u00e3o do mundo industrial\/metropolitano: por um lado certa ideia de \u201cbem-estar\u201d e, por outro, a categoria de \u201cpobreza\u201d. A categoria de \u201cpobreza\u201d foi fundamental para a gest\u00e3o da moderniza\u00e7\u00e3o porque ela, de um lado, empurrou um conjunto de coletividades e seus modos de vida para uma zona de exist\u00eancia residual, ultrapassada, insuficiente, e, portanto, destinadas \u00e0s pr\u00e1ticas de tutela e \u201cinclus\u00e3o\u201d. Por outro lado, ela ocultou as formas de viol\u00eancia e despossess\u00e3o que iam degradando permanentemente esses modos de vida e suas autonomias. A cis\u00e3o entre \u201cquest\u00f5es sociais\u201d e \u201cquest\u00f5es ecol\u00f3gicas\u201d tamb\u00e9m explica o afastamento do movimento ecol\u00f3gico dos movimentos socialistas ao longo do s\u00e9culo XX e as escassas elabora\u00e7\u00f5es sobre a evidente rela\u00e7\u00e3o entre degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e formas de despossess\u00e3o das comunidades humanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-zhn1m788\">O soci\u00f3logo Ulrich Beck dizia j\u00e1 no final da d\u00e9cada de 1980 que o \u201cproblema ambiental\u201d emergente n\u00e3o era evidentemente um problema ecol\u00f3gico, mas um colapso da sociedade industrial e suas institui\u00e7\u00f5es nas suas formas de se relacionar com a biosfera e com a vida como um todo. Ele sugeria pensar ent\u00e3o em uma \u201cglobalidade da contamina\u00e7\u00e3o\u201d, mas tamb\u00e9m poder\u00edamos falar em uma geopol\u00edtica da contamina\u00e7\u00e3o porque os termos pol\u00edticos que d\u00e3o forma \u00e0s democracias contempor\u00e2neas e as elites pol\u00edticas que as conduzem est\u00e3o intimamente implicados nos combust\u00edveis f\u00f3sseis, nos circuitos financeiros da terra e do agroneg\u00f3cio em suas zonas de toxicidade, no extrativismo que sustenta a crescente demanda por min\u00e9rios, na alta demanda energ\u00e9tica e tamb\u00e9m no controle dos fluxos informacionais. Como sintetiza Machado Ar\u00e1oz, \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de ordenar o espa\u00e7o &#8211; como ato de poder &#8211; que produz o funcionamento de uma hierarquiza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o geogr\u00e1fico moderno cujo pilar tem a ver com o estabelecimento de \u201czonas de sacrif\u00edcio\/aprovisionamento\u201d e centros de destino\/acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-5bco2828\">Esses processos se d\u00e3o a partir de um repert\u00f3rio colonial e autorit\u00e1rio e por isso constitui um outro ponto importante para pensarmos o colapso ambiental em suas m\u00faltiplas dimens\u00f5es: n\u00e3o existe processo de \u201ccrescimento econ\u00f4mico\u201d sem um regime pol\u00edtico autorit\u00e1rio que possa garantir que as for\u00e7as de seguran\u00e7a (legais ou ilegais) atuem na estabiliza\u00e7\u00e3o e pacifica\u00e7\u00e3o das din\u00e2micas de resist\u00eancia \u00e0 espolia\u00e7\u00e3o permanente. Isso quer dizer que as ideias de \u201cprogresso\u201d e de \u201cbem-estar\u201d fabricadas especialmente depois da segunda guerra mundial, com a chamada \u201cGrande Acelera\u00e7\u00e3o\u201d, atuam como forma de legitimar tomadas de decis\u00e3o em todos os espectros ideol\u00f3gicos e que por sua vez opera, de forma continuada, a destrui\u00e7\u00e3o e deteriora\u00e7\u00e3o de formas de exist\u00eancia consideradas \u201clentas\u201d, \u201cpouco eficientes\u201d, \u201cpouco racionais\u201d, ainda n\u00e3o \u201cincorporadas\u201d na sociedade de classes. Esse repert\u00f3rio tamb\u00e9m foi importante para dar suporte \u00e0s democracias contempor\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, entendo que a economia pol\u00edtica f\u00f3ssil \u00e9, no fundo, a gest\u00e3o autorit\u00e1ria de um certo regime de efici\u00eancia e escala que organiza humanos e n\u00e3o humanos em uma forma de dom\u00ednio de espolia\u00e7\u00e3o permanente que se apresenta como universal e inevit\u00e1vel. Ela opera a partir da fic\u00e7\u00e3o do \u201cprogresso\u201d, um imperativo que exige deixar para tr\u00e1s pr\u00e1ticas de conhecimento e formas de rela\u00e7\u00e3o multiesp\u00e9cie que est\u00e3o implicadas com o tempo da vida em toda a sua diversidade, abertura e imprevisibilidade. O autoritarismo, ou melhor, o repert\u00f3rio colonial de gest\u00e3o de corpos e territ\u00f3rios funciona a\u00ed como a forma pol\u00edtica oculta do Antropoceno, o que eu chamo de uma sexo-pol\u00edtica racial &#8211; externalizando e distribuindo danos, deslocando for\u00e7adamente popula\u00e7\u00f5es, aniquilando pr\u00e1ticas n\u00e3o monetarizadas de cuidado, subtraindo o tempo da vida, colonizando as formas de prazer e tempo livre, racializando e criminalizando territ\u00f3rios e pessoas que s\u00e3o lidos como \u201cinimigos\u201d da marcha do progresso, do desenvolvimento nacional, da geopol\u00edtica f\u00f3ssil etc.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/3b2d04_789386bb51c64b2fadc97d6e34f85346~mv2.jpg\/v1\/fill\/w_740,h_266,al_c,q_80,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto\/3b2d04_789386bb51c64b2fadc97d6e34f85346~mv2.jpg\" alt=\"Detalhe de Aqui est\u00e1 caliente\u00a0(2023), Santiago Yahuarcani\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Detalhe de <em>Aqui est\u00e1 caliente<\/em>&nbsp;(2023), <strong>Santiago Yahuarcani<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-rk2na2324\">Ainda no in\u00edcio do s\u00e9culo, vanguardas futuristas, como a italiana, transformaram em valores est\u00e9ticos \u201ca m\u00e1quina, a velocidade, a viol\u00eancia e a guerra\u201d (Berardi, 2019:13). O futurismo e seus desdobramentos fascistas eram tamb\u00e9m uma guerra tecno-est\u00e9tica contra o \u201catraso\u201d do sensual, da ambiguidade e fluidez, do que n\u00e3o pode ser fixado de uma vez por todas nos termos funcionais do regime produtivo moderno de sexo-g\u00eanero e sua pol\u00edtica f\u00f3ssil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-etl4o934\">Quando a campanha do Donald Trump tem como slogan propulsor a defesa da rela\u00e7\u00e3o entre a \u201cgrande democracia americana\u201d e o uso sem limites de combust\u00edveis f\u00f3sseis, ela n\u00e3o est\u00e1 sendo apenas \u201cnegacionista\u201d, mas revelando a verdade do funcionamento de uma geopol\u00edtica f\u00f3ssil, a infraestrutura pol\u00edtica que vai dos sistemas de governan\u00e7a global at\u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o mais molecular e libidinal dos desejos autorit\u00e1rios. Cara Daggett sugere pensar em uma \u201cPetro-Masculinidade\u201d enfatizando a rela\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e afetiva entre combust\u00edveis f\u00f3sseis e as ordens patriarcais brancas. A reivindica\u00e7\u00e3o de uma identidade coletiva baseada no petr\u00f3leo e no crescimento permanente da demanda\/produ\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica atua em confronta\u00e7\u00e3o direta contra os modos de exist\u00eancia voltados \u00e0 vida e esse \u00e9 um dos cora\u00e7\u00f5es dos conflitos contempor\u00e2neos no mundo. A petro-masculinidade e sua forma de habitar o mundo tornam-se a gest\u00e3o da cat\u00e1strofe permanente se entendemos que existe no bojo do que se reconhece como \u201cmudan\u00e7a clim\u00e1tica\u201d processos lentos e continuados de contamina\u00e7\u00e3o, despossess\u00e3o, deslocamento for\u00e7ado e deteriora\u00e7\u00e3o nas possibilidades de modos de vida aut\u00f4nomos aos circuitos do capital, a supress\u00e3o permanente do prazer de viver nos entrela\u00e7amentos interesp\u00e9cies.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-u6o6p980\">E eu acredito que resida a\u00ed o principal impasse pol\u00edtico dos nossos tempos porque grande parte da esquerda institucional aderiu completamente ao modo de gest\u00e3o da cat\u00e1strofe, ainda apostando que o projeto de sucesso eleitoral tem a ver com os \u00edndices da pol\u00edtica f\u00f3ssil: crescimento permanente, amplia\u00e7\u00e3o do acesso ao consumo, bem-estar como financeiriza\u00e7\u00e3o\/endividamento da vida, simplifica\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. Essa equa\u00e7\u00e3o parece mais justa quando justificada e feita em nome do \u201ccombate \u00e0 pobreza\u201d, mas n\u00e3o existe nenhuma evid\u00eancia hist\u00f3rica que consiga relacionar a fic\u00e7\u00e3o do crescimento com diminui\u00e7\u00e3o consistente da desigualdade social, basta observar qualquer cidade onde exista atividade de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, minera\u00e7\u00e3o, agroneg\u00f3cio ou que tenha sofrido o impacto de uma grande obra de infraestrutura energ\u00e9tica. S\u00e3o cidades, na maioria das vezes, extremamente desiguais e violentas. N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o agrad\u00e1vel essa afirma\u00e7\u00e3o, mas a verdade \u00e9 que a maior parte da esquerda progressista \u00e9 tamb\u00e9m negacionista. E n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que, diante desse terr\u00edvel impasse, as experi\u00eancias ind\u00edgenas e territoriais, de um modo geral, parecem oferecer alternativas muito mais realistas diante do colapso em curso. O paradoxo \u00e9 que a esquerda, os que agem em nome do \u201creal\u201d ou da \u201crealpolitik\u201d, parecem hoje estar totalmente alheios \u00e0 realidade da terra e sua materialidade viva, est\u00e3o ainda atrelados demais ao horizonte moderno de expans\u00e3o perp\u00e9tua.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-v6bls1050\">Um dos maiores desafios do nosso tempo \u00e9 pensar em formas de desarticular as democracias contempor\u00e2neas com a pol\u00edtica f\u00f3ssil. O observat\u00f3rio do clima divulgou um dado n\u00e3o t\u00e3o surpreendente sobre a COP29, a Confer\u00eancia das Partes da Conven\u00e7\u00e3o do Clima das Na\u00e7\u00f5es Unidas de Baku, no Azerbaij\u00e3o. Na confer\u00eancia estiveram presentes 1.773 representantes do lobby f\u00f3ssil, o que supera a delega\u00e7\u00e3o de pa\u00edses mais afetados hoje pelo colapso socioambiental. Esse n\u00famero \u00e9 revelador para compreendermos que, apesar da \u201cagenda clim\u00e1tica\u201d estar cada vez mais presente nos espa\u00e7os da chamada governan\u00e7a global, \u00e9 a geopol\u00edtica f\u00f3ssil que segue dando as cartas e sustentando os processos democr\u00e1ticos. O historiador indiano Chakrabarty produziu uma das mais afiadas reflex\u00f5es sobre essa rela\u00e7\u00e3o. Ele chama aten\u00e7\u00e3o para o fato de que durante o s\u00e9culo XX a ideia de \u201cliberdade\u201d, no mundo euro-americano, esteve fortemente vinculada \u00e0 possibilidade de produ\u00e7\u00e3o sem limites, \u201ca mans\u00e3o das liberdades modernas repousa sobre uma base de uso de combust\u00edveis f\u00f3sseis em permanente expans\u00e3o\u201d (Chakrabarty, 2013: 11).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-k2c2z1327\">N\u00e3o penso que tenhamos que abrir m\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de \u201cliberdade\u201d, mas certamente a disputa pela sua defini\u00e7\u00e3o ser\u00e1 central para a luta pol\u00edtica do presente. Como eu disse no come\u00e7o, existe uma tradi\u00e7\u00e3o de luta dos trabalhadores que se faz contra a supress\u00e3o do tempo da vida pelo capital &#8211; e que hoje retorna, por exemplo, com a aquecida circula\u00e7\u00e3o da reivindica\u00e7\u00e3o de uma \u201cvida al\u00e9m do trabalho\u201d. Pensar a liberdade como uma forma de retomar o tempo para a vida, como fazem muitas coletividades ind\u00edgenas, quilombolas, os chamados povos tradicionais, \u00e9 uma forma de reivindica\u00e7\u00e3o que rompe com o horizonte da expans\u00e3o permanente e produz outras formas de viver bem, outros modos de habitar a terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-8hfv41125\"><strong>2)&nbsp;O tema da \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d vem aparecendo como um campo emergente importante no qual confluem pol\u00edticas governamentais, agendas de pesquisa e financiamentos. Parte importante deste campo est\u00e1 relacionado a novos discursos tecnol\u00f3gicos ligados \u00e0s chamadas \u201cenergias limpas\u201d, \u201cverdes\u201d ou mais \u201cinteligentes\u201d, tecnologias que prometem novos regimes de \u201cefici\u00eancia\u201d no que diz respeito ao uso de recursos. Voc\u00ea prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre as afinidades de uma certa imagina\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica com o repert\u00f3rio extrativista, poderia elaborar mais sobre essa quest\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s estamos mapeando e refletindo sobre os modos pelos quais o discurso tecnol\u00f3gico vem dando forma aos projetos de renova\u00e7\u00e3o do tecnoextrativismo, agora atrav\u00e9s de uma plataforma organizada pelas ideias de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, energias renov\u00e1veis e que adquire, por isso, novos patamares de valida\u00e7\u00e3o (Parra; Moraes 2024). A gram\u00e1tica do extrativismo constitui a economia tecnopol\u00edtica de um modelo civilizat\u00f3rio e faz convergir modos permanentes de espolia\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o autorit\u00e1ria para converter e administrar territ\u00f3rios em zonas de aprovisionamento. Mas ela tamb\u00e9m constitui modelos de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, imagina\u00e7\u00f5es sobre futuro, sobre \u201cliberdade\u201d, regimes de efici\u00eancia e epistemol\u00f3gicos que governam a vida terrestre. As ditas \u201cinova\u00e7\u00f5es tecnocient\u00edficas\u201d recentes ligadas \u00e0 expans\u00e3o das tecnologias digitais e informacionais como os modelos de \u201cintelig\u00eancia artificial\u201d, por exemplo, apresentam um novo ciclo de demanda crescente por energia el\u00e9trica e extra\u00e7\u00e3o dos chamados metais raros. Nos parece que em nome da \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica\u201d se renova o esp\u00edrito da ideologia tecnopol\u00edtica da Guerra Fria na qual a ideia de \u201cavan\u00e7o tecnol\u00f3gico\u201d, escalabilidade, automa\u00e7\u00e3o e \u201cefici\u00eancia\u201d passam a dar as cartas, de forma mais decisiva, na geopol\u00edtica global e na legitimidade das formas pol\u00edticas coloniais de dom\u00ednio.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-6aayz1411\">Em 2023, Marc Andreessen lan\u00e7ou o \u201cThe Techno-Optimist Manifesto\u201d. No texto, ele argumenta que devemos ser \u201ctecno-otimistas\u201d e apostar na inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para a produ\u00e7\u00e3o de \u201cenergia limpa\u201d ilimitada. O fundador da Amazon, Jeff Bezos, administra tamb\u00e9m o \u201cBezos Earth Fund\u201d cujo princ\u00edpio \u00e9, entre outras coisas, \u201ccompetir por um novo caminho a seguir\u201d, a Microsoft hoje concentra esfor\u00e7os em promover a \u201cacelera\u00e7\u00e3o da inova\u00e7\u00e3o na agricultura\u201d. Em todos esses discursos, a terra aparece como um conjunto de sistemas que podem ser convertidos em dados para a melhor gest\u00e3o dos projetos de extra\u00e7\u00e3o permanente. O conceito de informa\u00e7\u00e3o me parece central para entender o tecnoextrativismo. Riemes identifica essas pr\u00e1ticas e enunciados como um \u201cecomodernismo\u201d e mostra como tais enunciados apresentam um desejo de \u201cdesacoplamento\u201d da Terra; de viver em plena imaterialidade. O sonho do tecnoextrativismo \u00e9 o sonho de um mundo sem pertencimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-8lpsj1496\">Mas o ritmo acelerado da corrida por infraestruturas e inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas ligadas \u00e0 IA e, consequentemente, a corrida pela viabilidade de suas infraestruturas materiais, do chip de sil\u00edcio at\u00e9 tudo que garante o funcionamento dos data centers,&nbsp;fazem desmoronar a ilus\u00e3o de que uma economia digital permitiria a dissocia\u00e7\u00e3o entre o paradigma da expans\u00e3o perp\u00e9tua e a explora\u00e7\u00e3o de recursos energ\u00e9ticos. Mark P. Mills, um engenheiro diretor do National Center on Energy vai lembrar, por exemplo, que existe uma f\u00edsica do transporte de informa\u00e7\u00e3o e que a energia para permitir uma hora de v\u00eddeo \u00e9 maior do que o combust\u00edvel consumido por uma \u00fanica pessoa numa viagem de 15 quil\u00f4metros de \u00f4nibus ou o que algumas pesquisas estimam que, por exemplo,que um \u00fanico data center pode consumir o equivalente \u00e0 eletricidade de cinquenta mil resid\u00eancias, alguns consomem juntos mais energia do que alguns estados na\u00e7\u00e3o. O que estamos tentando mostrar \u00e9 que por tr\u00e1s da excita\u00e7\u00e3o sobre inova\u00e7\u00e3o e avan\u00e7o tecnocient\u00edfico prometidos pelas novas tecnologias informacionais existe uma opera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de convers\u00e3o da vida em excesso informacional, como sugere o amigo e pesquisador Silvio Rhatto &#8211; o que nos leva a pensar muito mais criticamente, por exemplo, os projetos de \u201cinclus\u00e3o digital\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-oguhz1584\">Al\u00e9m disso, outras pesquisas recentes j\u00e1 v\u00eam mostrando que muitas das chamadas \u201cenergias limpas\u201d, como a e\u00f3lica, est\u00e3o sendo implementadas em modelos industriais (\u201cusinas\u201d) e causando tenebrosos impactos na sa\u00fade dessas popula\u00e7\u00f5es assim como em todo o ecossistema local. Novas doen\u00e7as est\u00e3o sendo catalogadas nesse contexto relacionados a problemas auditivos, visuais, al\u00e9m de \u00f3bvios problemas de sa\u00fade mental. O tema de uma \u201ctransi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa e popular\u201d ganha cada vez mais import\u00e2ncia entre movimentos e coletividades de luta pela e com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-gggk51675\">Sun-ha Hong (2022) descreve como a crescente aposta otimista no \u201cavan\u00e7o tecnol\u00f3gico\u201d continua operando a partir de uma l\u00f3gica do \u201cprogresso como destino\u201d. O que desejamos mostrar \u00e9 que, evidentemente, n\u00e3o existe uma solu\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ou tecnol\u00f3gica para a cat\u00e1strofe em curso, mas que o colapso clim\u00e1tico \u00e9 fruto da cat\u00e1strofe ancestral do colonialismo e suas tecnologias de extra\u00e7\u00e3o e controle. Ao mesmo tempo, estou muito interessada em pensar sobre as din\u00e2micas t\u00e9cnicas que fazem persistir as autonomias territoriais, os circuitos de cuidado e prazer que fazem um habitar vivo, diverso, que resistem aos processos renovados de convers\u00e3o da vida em recurso, em informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trata-se de \u201cmetabolismos cosmopol\u00edticos\u201d, como sugere Lucas Keese pensando com os Guarani-Mbya, que excedem os modos de simplifica\u00e7\u00e3o, convers\u00e3o, sobrecodifica\u00e7\u00e3o do capital e seus dispositivos. Se o pensamento tecnol\u00f3gico dominante insiste em operar um mundo passivo e dado, nas coletividades amer\u00edndias, por exemplo, a tecnicidade pensa um mundo vivo e constante transforma\u00e7\u00e3o &#8211; assim, toda a circula\u00e7\u00e3o implica muitos sujeitos, muitas media\u00e7\u00f5es, v\u00ednculos, regimes de sensibilidade, muitas for\u00e7as agentivas que exigem cuidados espec\u00edficos, mas que confluem no desejo de adensamento e multiplica\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as. \u00c9 sempre ruim pensar em termos de \u201cpovos ind\u00edgenas\u201d de uma forma homogeneizante. S\u00f3 no Brasil temos uma diversidade enorme de contextos socioterritoriais que, por sua vez, produzem diversas formas de conflito, resist\u00eancia, modos de exist\u00eancia &#8211; mas a luta pela autonomia pol\u00edtica e territorial, em muitos sentidos, parece ser algo comum entre esses coletivos, como aponta a tese defendida recentemente do colega F\u00e1bio Alkmin (2024).<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-w27d81739\"><strong>3) Os chamados negacionismos clim\u00e1ticos e cient\u00edficos encontram evidentes afinidades com discursos conservadores ligados \u00e0 extrema direita no mundo hoje. As redes tradicionais ligando ci\u00eancia, expertise e autoridades governamentais no \u00e2mbito da tomada de decis\u00f5es s\u00e3o hoje mais intensamente confrontadas. Voc\u00ea sugere, no entanto, que apenas a afirma\u00e7\u00e3o ou defesa de um regime de verdade cient\u00edfico parece enfraquecer as possibilidades mais insurgentes ligadas \u00e0s pr\u00e1ticas de conhecimento. Como voc\u00ea visualiza as novas rela\u00e7\u00f5es entre lutas sociais, justi\u00e7a clim\u00e1tica e pr\u00e1ticas de conhecimento? Como os conflitos ontoepistemol\u00f3gicos podem apontar para outras possibilidades de confronta\u00e7\u00e3o social que n\u00e3o a defesa da ci\u00eancia como regime de autoridade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-r36832032\">O que o mundo euroamericano hoje reconhece como \u201cNovo Regime Clim\u00e1tico\u201d \u00e9 tamb\u00e9m e, sobretudo, uma crise do regime epistemol\u00f3gico moderno que, de certa forma, implicou o projeto moderno de ci\u00eancia com a tarefa de aprimorar, cada vez mais, as capacidades de convers\u00e3o do mundo em recurso. Como gosta de lembrar o Laymert Garcia dos Santos, a virada cibern\u00e9tica acelerada pela Segunda Guerra Mundial avan\u00e7ou no sentido de conferir \u00e0 tecnoci\u00eancia o papel din\u00e2mico da acumula\u00e7\u00e3o que vai tomar todo o mundo existente como mat\u00e9ria-prima inerte \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia e da tecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-35qdt2164\">Podemos pensar no caso da agricultura e nos sistemas agroalimentares. A chamada \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Verde\u201d foi um processo importante que, durante o s\u00e9culo XX, mobilizou recursos, pesquisas e governos para o desenvolvimento de uma s\u00e9rie de t\u00e9cnicas que prometiam maior efici\u00eancia e produtividade dos sistemas agroalimentares: \u201cmelhoramento\u201d de sementes; produzindo novos e potentes agrot\u00f3xicos capazes de \u201ccontrolar\u201d a indetermina\u00e7\u00e3o da vida multiesp\u00e9cie. No Brasil, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pensar a expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio sem as redes de financiamento p\u00fablico de pesquisas, assim como uma s\u00e9rie de outros subs\u00eddios p\u00fablicos. A hist\u00f3ria da Embrapa est\u00e1 ligada \u00e0 hist\u00f3ria da soja no pa\u00eds &#8211; ambas, ali\u00e1s, emergem como projetos estrat\u00e9gicos da ditadura empresarial militar na d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-s9vk82234\">Hoje, como j\u00e1 apontam muitas pesquisas recentes, o sistema alimentar global \u00e9 um dos principais impulsionadores do decl\u00ednio e perda da biodiversidade do planeta. Em muitas ocasi\u00f5es, a diversidade agr\u00edcola existente \u00e9 tratada como algo \u201cdado\u201d que precisa ser coletada, registrada e classificada para sua \u201cconserva\u00e7\u00e3o\u201d, o que oblitera o conjunto de pr\u00e1ticas ancestrais das comunidades ind\u00edgenas na produ\u00e7\u00e3o ativa de ecossistemas e paisagens vegetais que envolvem cria\u00e7\u00e3o, experimenta\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o, trocas e transmiss\u00e3o de conhecimento multiesp\u00e9cies que integram um regime de implica\u00e7\u00e3o radical entre natureza e cultura. O \u201cproblema da escala\u201d foi historicamente constru\u00eddo desde a chamada Revolu\u00e7\u00e3o Verde e produziu, a partir de uma gram\u00e1tica t\u00e9cnica, a ideia de uma \u201cagricultura moderna\u201d e \u201cracional\u201d capaz de resolver o problema da fome no mundo, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas \u201ctradicionais\u201d e \u201clocais\u201d. Hoje essa \u201cevid\u00eancia\u201d parece estar cada vez mais em cheque.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-q9fvl2340\">A ci\u00eancia que produziu as infraestruturas tecnopol\u00edticas para a expans\u00e3o da monocultura e do agroneg\u00f3cio tem como norteadoras as ideias de efici\u00eancia e controle, enquanto para muitas outras pr\u00e1ticas bem mais eficientes em termos de diversidade de esp\u00e9cies, de sa\u00fade, as ideias centrais tem a ver com o conhecimento constru\u00eddo a partir da implica\u00e7\u00e3o com m\u00faltiplas rela\u00e7\u00f5es de interdepend\u00eancia, com no\u00e7\u00f5es de viver bem que incorporam a autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao mundo do capital e suas rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia. Como discute Ma\u00edra Bueno de Carvalho (2021), a \u201cinven\u00e7\u00e3o discursiva recente\u201d sobre a biodiversidade \u00e9 dinamizada por um novo regime informacional no qual circulam patentes, novas biotecnologias fazendo com que sementes se tornem \u201cplataformas de informa\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas que podem ser decodificadas, manipuladas e apropriadas\u201d (Carvalho, 2021, p. 11). Em tal regime, os modos de vida tradicionais s\u00e3o, muitas vezes, convertidos em informa\u00e7\u00f5es adicionais (como aqueles capazes de \u201cconserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade\u201d) para oferecer subs\u00eddios e dados para pesquisas cient\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-zyc462414\">Esse \u00e9 um bom exemplo para pensarmos sempre criticamente a \u201cdefesa da ci\u00eancia\u201d, como se ela n\u00e3o fosse um campo aberto e irrigado de disputas sobre modos distintos de habitar o planeta. O imperativo do \u201cdesenvolvimento\u201d e da moderniza\u00e7\u00e3o \u2013 em torno do trip\u00e9 urbaniza\u00e7\u00e3o, industrializa\u00e7\u00e3o e progresso t\u00e9cnico \u2013 tem se imposto, especialmente na Am\u00e9rica Latina, \u201cmarginalizando ou impedindo assim outras formas de ver e fazer\u201d (Escobar, 1992, p. 342). Como argumenta tamb\u00e9m Stengers, a for\u00e7a da \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o\u201d e sua ideologia do \u201cprogresso\u201d produzem um cemit\u00e9rio de pr\u00e1ticas e de saberes coletivos que s\u00e3o lentamente destru\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pra mim, o cora\u00e7\u00e3o das conflitualidades contempor\u00e2neas n\u00e3o \u00e9 o combate ao \u201cnegacionismo\u201d, mas est\u00e1 naquilo que entrela\u00e7a as disputas socioterritoriais e seus modos de exist\u00eancia com pr\u00e1ticas de conhecimento, ou seja, na defesa dos pressupostos que definem os entes que existem no mundo, suas rela\u00e7\u00f5es, condi\u00e7\u00f5es materiais de exist\u00eancia e como tudo isso pode confrontar a separa\u00e7\u00e3o entre natureza e cultura, perturbar o consenso sobre \u201cefici\u00eancia\u201d ou as rela\u00e7\u00f5es que implicam uma certa ideia de \u201cavan\u00e7o tecnol\u00f3gico\u201d baseado em mais controle e menos diversidade. Quando outras ag\u00eancias est\u00e3o em jogo &#8211; esp\u00edritos, animais e plantas com suas hist\u00f3rias e rela\u00e7\u00f5es, festas, cantos sagrados que se relacionam com ro\u00e7as e esp\u00e9cies vegetais, sonhos, circuitos de reciprocidade intensiva que cultivam paisagens e pessoas &#8211; quando tudo isso entra na cena p\u00fablica, o movimento de convers\u00e3o e simplifica\u00e7\u00e3o do capital de toda a complexidade da vida e em unidades abstratas intercambi\u00e1veis torna-se mais inabilitado.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-8h5xc2641\">A implica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desse debate vem da constata\u00e7\u00e3o de que reconhecer diferentes regimes de conhecimento \u00e9 tamb\u00e9m reconhecer as condi\u00e7\u00f5es cosmol\u00f3gicas e pol\u00edticas de sua possibilidade. No caso de territ\u00f3rios ind\u00edgenas, quilombolas, cai\u00e7aras, pequenos extrativistas e outras terras tradicionalmente ocupadas, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a luta pela defesa de suas autonomias territoriais, pr\u00e1ticas de habitar o mundo e cosmopol\u00edticas que dependem de entes e ag\u00eancias mais que humanas para sua exist\u00eancia. Suas cosmopr\u00e1ticas e tecnologias de biodiversifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 podem ser poss\u00edveis na medida em que possam existir com autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao imperativo do \u201cdesenvolvimento nacional\u201d e da escalabilidade do capital industrial extrativista, e assim convocam \u201cos seres-terra para a esfera do pol\u00edtico\u201d, for\u00e7ando \u201co antagonismo que proscreveu seus mundos a se fazer vis\u00edvel\u201d (De La Cadena, 2019, p. 14).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-piz1y2759\">Desta forma, entendo que a luta contra a perda da biodiversidade e qualquer possibilidade de reverter o colapso ecol\u00f3gico em curso passa por considerar as implica\u00e7\u00f5es entre dom\u00ednio, controle e suas infraestruturas de conhecimento e poder que d\u00e3o forma aos modos de fazer mundos. Nesse caso, a luta n\u00e3o se faz em um plano ideol\u00f3gico necessariamente, mas no plano de um materialismo sens\u00edvel radical que \u00e9 capaz de reconhecer os seres da terra como produtores de um mundo sem o qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver. \u00c9 um mundo coproduzido pelas rela\u00e7\u00f5es interesp\u00e9cies e pelas formas t\u00e9cnicas que materializam as formas pelas quais compomos nossas exist\u00eancias com outras exist\u00eancias, um regime de percep\u00e7\u00e3o, formas sens\u00edveis e est\u00e9ticas, aten\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o ampliada povoado de perspectivas em constante negocia\u00e7\u00e3o &#8211; e que, por isso, resiste em ser convertido em \u201cinforma\u00e7\u00e3o\u201d ou pensar sempre em termos de \u201cdom\u00ednio\u201d e \u201ccontrole\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Penso que uma das tarefas urgentes \u00e9 tamb\u00e9m retomar o prazer como categoria central nas nossas formas de pensar, agir e sustentar modos de exist\u00eancia. O capitalismo n\u00e3o pode avan\u00e7ar sem colonizar nossas formas de prazer. O que os territ\u00f3rios em luta nos mostram \u00e9 o prazer de viver para al\u00e9m do trabalho subordinado, mas em uma er\u00f3tica do cotidiano aberta \u00e0 indetermina\u00e7\u00e3o e \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Essas experi\u00eancias acabam contaminando e fecundando outras possibilidades, aterrando o distante horizonte da transforma\u00e7\u00e3o ou da \u201cdemocracia\u201d em um solo no qual pisamos juntas, contamos nossas hist\u00f3rias e defendemos nossa liberdade que pode ser traduzida como \u201ca vida al\u00e9m do trabalho\u201d; al\u00e9m da financeiriza\u00e7\u00e3o; al\u00e9m da d\u00edvida que nos desvincula e nos adoece; uma vida para o prazer.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/3b2d04_1abe3dd1ab7d4445ab37548cec7e7c08~mv2.png\/v1\/fill\/w_740,h_493,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto\/3b2d04_1abe3dd1ab7d4445ab37548cec7e7c08~mv2.png\" alt=\"Aqui est\u00e1 caliente (2023), Santiago Yahuarcani\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Aqui est\u00e1 caliente<\/em> (2023), <strong>Santiago Yahuarcani<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-s64ps146\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-btm2j251\">ALKMIN, F\u00e1bio. Rios vazantes: autonomias ind\u00edgenas e geografias anticoloniais na Amaz\u00f4nia brasileira. Tese (Doutorado em Geografia Humana) &#8211; Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, 2024. doi:10.11606\/T.8.2024.tde-28112024-113909. Acesso em: 2024-12-04.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-zbqaz274\">ANDREESSEN, M. The techno-optimist manifesto. 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-fjldb242\">AR\u00c1OZ, Horacio Machado. Ecolog\u00eda Pol\u00edtica de los Reg\u00edmenes extractivistas. De Reconfiguraciones imperiales y Re-ex-sistencias decoloniales en nuestra am\u00e9rica. Bajo el Volc \u00e1n, a\u00f1o 15, n\u00famero 23, septiembre 2015-febrero 2016<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-lwqls364\">BECK, Ulrich. Sociedade de Risco: Rumo a uma outra modernidade. S\u00e3o Paulo. Ed. 34. 2010<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-lvtt5305\">BERARDI, Franco. Depois do Futuro. S\u00e3o Paulo. Ed. UBU. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-6y9hy490\">CARVALHO, Ma\u00edra Bueno de. Conserva\u00e7\u00e3o da agrobiodiversidade, popula\u00e7\u00f5es tradicionais e cientistas. Ilha Revista de Antropologia,&nbsp;Florian\u00f3polis, v. 23, n. 2, p. 6\u201326, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-zzn35349\">DAGGETT, C. Petro-masculinity: Fossil Fuels and Authoritarian Desire. Millennium: Journal of International Studies. 2018.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-78obm362\">DE LA CADENA, Marisol. Cosmopol\u00edtica ind\u00edgena en los Andes: reflexiones conceptuales m\u00e1s all\u00e1 de la \u00abpol\u00edtica\u00bb. Tabula Rasa, 33, 273-31. 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-kwmgk397\">ESCOBAR, Arturo. Imagining a Post-Development Era? Critical Thought, Development and Social Movements. Social Text, [S. l .], n. 31\/32, p. 20, 1992HONG, Sun-ha. Predictions without futures. History and Theory, Middletown, v. 61, p. 371-390, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-i4spr435\">KEESE, Lucas. A Esquiva do Xondaro: Movimento e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica Guarani Mbya. S\u00e3o Paulo. Ed. Elefante. 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-xdzw4620\">PARRA, Henrique Zoqui Martins; MORAES, Alana.. Apresenta\u00e7\u00e3o do Dossi\u00ea \u2013 Hegemonia Cibern\u00e9tica, Tecnoextrativismo e Colonialidade: Considera\u00e7\u00f5es sobre o Tecnoceno. Media\u00e7\u00f5es &#8211; Revista de Ci\u00eancias Sociais, Londrina, v. 29, n. 2.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-53ggp463\">RHATTO, Silvio. Ensaios vertiginosos. [S. l.]: Ensaios Fluxo, 2024. v.I: Projeto Vertigem. Dispon\u00edvel em: <a target=\"_blank\" href=\"https:\/\/ensaios.fluxo.info\/index.html\" rel=\"noreferrer noopener\">https:\/\/ensaios.fluxo.info\/index.html<\/a>. Acesso em:10 jul. 2024<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-z2qud751\">SANTOS, Antonio Bispo dos. O que a terra d\u00e1 a terra quer. S\u00e3o Paulo, SP: Ubu Editora, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-ivlrt495\">SANTOS, Laymert Garcia dos. A informa\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a virada cibern\u00e9tica. In : SANTOS, Laymert Garcia dos et al. Revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, internet e socialismo. S\u00e3o Paulo: Ed. Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo, 2003. p. 9-33.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" id=\"viewer-z5e1e527\">STENGERS, Isabelle. Reativar o animismo. Caderno de Leituras n.62. Ch\u00e3o da Feira, 2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado em Igr\u00e1 Kniga blog por Alana Moraes 1) Especialmente a partir da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, o tema do colapso socioambiental vem ganhando uma relev\u00e2ncia in\u00e9dita no debate p\u00fablico. Ao mesmo tempo, como sinalizaram Latour e Schultz, hoje, a \u201ccerteza da cat\u00e1strofe parece mais paralisar a a\u00e7\u00e3o\u201d. Para eles, tal paralisia \u00e9 uma [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":96,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-95","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-publicacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/95","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=95"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/95\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":108,"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/95\/revisions\/108"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/96"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=95"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=95"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/exlab.direitosnarede.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=95"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}